Palestras motivacionais? Educação à distância?

No dia 20 de fevereiro, participamos, a convite de uma cliente, de palestra motivacional, que muito nos intrigou.

O objetivo da palestra, além de motivar, era apresentar aos colaboradores da empresa a nova plataforma de educação à distância, com a finalidade de aprimoramento e, consequentemente, excelência no atendimento ao cliente.

O filósofo teórico da área da pedagogia René Hubert (1996, Lexicoteca, Vol. 7, p.94) define educação “como um “conjunto de ações e influências exercidas voluntariamente por um ser humano em outro, normalmente de um adulto em um jovem. Essas ações pretendem alcançar um determinado propósito no indivíduo para que ele possa desempenhar alguma função nos contextos sociais, econômicos, culturais e políticos de uma sociedade”.

Considerando essa definição, não seria, então, a plataforma apresentada um meio de informação e, não, educação?

Educar vai muito além da apresentação de informações, técnicas,  dados e exemplos concretos de administração e condução de negócios.

De acordo com o referido filósofo, a educação tem por objetivo auxiliar o aprendiz a desempenhar funções no contexto social, econômico, cultural e político da sociedade.

Naquela palestra, abordou-se, também, a questão da excelência no atendimento ao cliente e, de forma bastante apropriada, o palestrante colocou os vários níveis de empregados como clientes uns dos outros.

Entretanto, não temos percebido preocupação de líderes em tornar seus colaboradores parte efetiva da empresa, para torna-los agentes pensadores e parte atuante no contexto social, econômico, cultural e político da sociedade.

Há muito se gasta com meios de motivação, sem entretanto, atentar-se às verdadeiras ansiedades de seus empregados, que, diariamente, despendem a maior parte do tempo no convívio com colegas de trabalho e, não, com suas famílias.

O desenvolvimento de um trabalho profissional envolve trocas – aprende-se e ensina-se, diariamente.

E, em uma empresa, o conjunto de aprendizagem e ensinamentos devem compor a preocupação da equipe, tornando-a capaz de atender às demandas e necessidade de desenvolvimento das atividades e produtos oferecidos, sem descuidar de seus anseios particulares.

Robert Owen, reformista social galês, tornou-se diretor de importantes indústrias escocesas de fiação em Manchester e, aos 30 anos, já era co-proprietário e gerente de uma fábrica em New Lanark, fundada em 1785.

Como co-proprietário daquela fábrica, reduziu a jornada de trabalho  – grande avanço para aquele tempo, considerando que jornada de trabalho de um típico operário têxtil era de 14 a 16 horas, por dia.

Robert Owen  revelou, ainda, preocupação com a qualidade de vida dos seus empregados, construiu casas para famílias de trabalhadores, fundou o primeiro jardim-de-infância e a primeira cooperativa de trabalho.

Mais recentemente, a Microsoft do Japão, adotou, como experiência, a jornada de 4 dias úteis de trabalho, e concluiu que o faturamento, por funcionário, aumentou 40% em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

O programa recebeu o nome de “Desafio de Escolha Vida-Trabalho do Verão de 2019”, e apesar da redução na jornada, no mês de agosto/2019, os empregados receberam o pagamento normalmente.

Entre todas as propostas desse programa, o tempo de reunião foi encurtado, para, no máximo, 30 minutos.

Em razão da adoção desse programa, os empregados se dispuseram a responder a uma pesquisa e 92% revelaram-se satisfeitos com a jornada semanal de quatro dias.

E, apenas como dado de informação, a experiência resultou, ainda, redução em 58,7% de impressão de páginas e, de 23,1%, no consumo de energia.

Por isso, ficam, aqui, as indagações:

  • Será que uma empresa precisa de palestras motivacionais?
  • Ou o caminho para a excelência passa, necessariamente, no olhar mais atento ao ser humano e na forma de relacionamento com os empregados?

Lembramos que nunca se abordou, de maneira tão enfática, a preocupação com doenças psiquiátricas ligadas às atividades profissionais: depressão, ansiedade, síndrome do esgotamento profissional, entre tantas outras.

E se o número de casos dessas doenças aumentou sobremaneira, certamente, muitos empregados não veem em palestras motivos para sorrir e enxergar propósito naquilo que estão fazendo.

Considerando, assim toda essa perspectiva, já adotamos novos meios de orientação de nossos clientes, desenvolvendo trabalho de aproximação do departamento de recursos humanos ao departamento jurídico trabalhista, com a finalidade de adotar um ambiente de trabalho mais saudável e onde os empregados encontrem bem estar no desenvolvimento de suas atividades profissionais.

Autor | 2020-03-04T12:50:09-03:00 março 3rd, 2020|Artigos|
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